O QUE SOBROU DE MIM...
A morte é o suplício que chicoteia a alma, rasga-nos como papel, torce-nos como toalha até o último estalo dos ossos e faz escorrer todo o sangue, que verte sobre a toalha, dando-lhe um novo tom. Minhas costelas estão expostas; a carne revela a fundura das chagas, ao passo que a própria ferida denuncia a arma forjada pela vida que me cortou. Uma vez, professei que a desgraça é um cachorro faminto: segue-nos, rosnando aos nossos calcanhares, à procura de qualquer migalha de atenção. E nós, em nossa maldita fragilidade, acabamos por lhe entregar até aquilo que nos resta de afeto. Não há escolha. Sou obrigado a encarar a face nua da dor, um rosto descorado, endurecido pela miséria, que me aparece como uma máscara de carne morta. Suas mãos são ossudas; a pele, fria; os olhos, sem o menor vestígio das chamas que outrora fizeram da vida alguma coisa além de um castigo. E talvez seja isso o que mais revolta: não é a dor que nos destrói, mas a facilidade com que o mundo se acostuma a vê-la...








