HOJE.



O hoje sempre me pareceu mais imperioso que o ontem. O ontem é uma memória; o hoje é um policrômico cuja face nos oferece inúmeras opções.

O hoje desafia nossa inteligência, exige-nos um ato prudente para que não morramos ao final de nossas decisões. O hoje nos faz sentir o sofrer da má escolha.

Esse excruciante dessabor, quando gerado pelo ventre da imprudência, serra nossa consciência como uma lâmina cega, cujo ferir não se provoca pela armada folha, mas pela contundência com que a lâmina rasga a carne.

O hoje é severo: não espera por ninguém, não serve a nenhum outro que não seja ele mesmo, não oportuniza em igual medida aquilo que não seja ele próprio.

Agora, tudo aquilo havia passado. Aquele cálice, que já não voltará a encher-se, teve seu derradeiro gole sorvido pelo hoje. Resta-me um copo vazio e o halo úmido que denuncia o lugar onde repousara.

O hoje consome tudo o que toca, mas não o incrimino. Não lhe imputo culpa, como não se a imputa ao punhal pelo sangue que verte. Na melhor das hipóteses, o hoje é um instrumento; nós, os verdadeiros autores desse delito. Negligentemente, lavramos nossa própria condenação.

O homem cria seu próprio mal ao sacrificar o presente no altar do depois.


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