BURRO!
O jovem é uma criatura que precisa amadurecer com urgência. Não digo isso por desprezar a juventude, longe disso, até porque sou jovem e reconheço-me consciente das potências e limites que ela carrega. Ainda assim, é preciso admitir: pela mente ainda impúbere e engatinhante, o jovem cultiva o vício de achar que sabe de tudo. Constrói seu mundo infundo no frágil terreno do “eu acho”. Egoísmo? Não sei. Para afirmar com precisão, seria preciso um psicanalista. Mas posso dizer, convictamente, que é burrice, essa, sem dúvida é.
E é nesse vício da pretensa lucidez que encontrei o exemplo: Marcelo, personagem que compõe o drama O Caminho dos Sonhos. O sujeito isola-se numa ilha, justificando estar farto da vida e afirmando que não queria ter a mesma vida que seu avô e seu pai, pois, segundo ele, tiveram sonhos comezinhos, ordinários e rasos. Burro, gritei ao ler. Como pode afirmar aquilo que desconhece? O mal de afirmar o que não se sabe é desprezar trajetórias que nunca teria coragem de percorrer. Seu avô precisou fugir de um regime autoritário nazista para continuar vivo, batalhou para não ser extraditado, lutou para simplesmente respirar e existir. Seu pai, por sua vez, encontrava-se sem propósito, não por ausência de sonhos, mas por viver preso a uma herança de sobrevivência, tentando sustentar uma vida que já vinha marcada pelo cansaço.
É somente quando Paulo, pai de Marcelo, encara seus próprios medos é que algo muda. Ao unir-se aos amigos em prol de uma causa, ele encontra um propósito, não abstrato, mas concreto, garantir moradia aos desabrigados. O jovem que antes se isolava descobre que fugir não é maturidade, e que os sonhos que chamou de comezinhos eram, na verdade, alicerces construídos com sangue, suor e lágrimas.
Não acha que seria obrigação saber antes cogitar tal ideia e tomar uma atitude dessa?
O jovem é uma criatura esquisita, ergue certezas como quem constrói casas sobre a areia, questiona o mundo com a voz rouca da inexperiência e luta de mãos nuas contra inimigos que não compreende, tudo isso para sustentar ideias frágeis, paridas no ventre da mais profunda idiotice e vestidas com a fantasia do certo. Marcelo, hoje, sabe o que sua existência consisti no sonho que seus antecessores, mesmo exaustos, escolheram não abandonar.
Não sei dizer se, ao final, ele se dissuade dessa ideia estúpida. Espero que sim. Não se deve afirmar como verdade aquilo que não se conhece, nem escorraçar passados que não nos pertencem.
Finalizo aludindo ao que Nelson Rodrigues sabiamente disse: "Jovens envelheçam."

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