HÁ ESQUECIMENTOS QUE SÃO LEMBRANÇAS.


Não sei como ficará o final deste texto.

Não sei se este texto seguirá a propositura dos meus pensamentos… e só quando as ideias ganham formas é que entendo o embaraço interno daqui.

Este texto contém o registro duma vida; quando releio, regresso ao dia que estive aqui, ao dia que palateei este pedaço de momento.

É como voltar àquele velho lugar de infância. A casa permanece a mesma, cujas portas e ornatos preservam em sua madeira desgastada e rangida a coloridade duma vida que nela sobreveio.

Ainda sinto o cheiro do suor da correria no quintal… o cheiro do clima; como se cada época possuísse um perfume próprio.

Havia um perfume que eu usava então. Com o passar dos anos, deixou de ser apenas um aroma e tornou-se uma estação da memória. Como se as tardes, as conversas, os caminhos percorridos e a própria textura daqueles dias houvessem se depositado em suas notas. Hoje, basta um vestígio dele para que uma época inteira se derrame novamente sobre mim.

Talvez seja isso a memória: não uma sucessão de fatos, mas uma coleção de sensações que insistem em sobreviver ao carrasco tempo que costuma apagar coisas, mas não todas as coisas. Os rostos perdem seus contornos, as palavras se tornam imprecisas, mas o aroma da terra molhada, o calor da tarde sobre as telhas, as conversas na calçada à noite e o som distante das vozes permanecem intactos.

Quando escrevo, não procuro recordar. Procuro habitar novamente. Por alguns instantes, deixo de estar aqui para caminhar por corredores que já não existem senão dentro de mim. E, nesse retorno silencioso, descubro que o passado não ficou para trás; ele continua vivendo em pequenas porções de nós mesmos, aguardando apenas uma palavra para despertar.

Mas há esquecimentos que são lembraças. Creio que esquecer é uma forma de lembrar. Aquilo que se esquece se perpetua em nosso ser. Não lembro todos os dias; apenas lembro. Pois o que era meu, agora sou eu.

Portanto, não se zangue quando se esquecer, pois paradoxamente, a lembrança reside no esquecimento.

A memória hospeda-se nos cômodos deste velho coração, nas prateleiras do meu ser, junto às tantas importâncias que ali descansam. Já não preciso procurá-la. Ela vive onde se pulsa, ela vive onde eu vivo.

Reler o que escrevo, é voltar a viver aquele instante de existência. Acho que este texto seguiu a proposta dos meus pensamentos.

Espero!


Comentários

Postagens mais visitadas