O SILÊNCIO QUE DEVORA O QUE ACREDITÁVAMOS CONTROLAR.
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| Dante et Virgile sur les rives du Purgatoire; François Lafon. |
A profundida está na poesia, e a poesia declara aquilo que o comum diria gaguejando.
Acredita nisso? Pois bem… preste atenção na guisa deste texto, e entenda o conceito de fracasso sob uma nova pespectiva.
Veio sem que eu soubesse, embora eu já soubesse que sempre esteve aqui.
E a única razão é que tu és a maldita visita inesperadamente esperada.
E mesmo quando chegas, sabendo eu, estupidamente, que viria, machuca-me como se nunca tivesses vindo antes.
Fere-me como se o corpo não tivesse memória. E se instala nos apossentos do meu ser, como se fosse primeira vez.
És visita incômoda e necessária. Chegas causando desconforto.
Nos obriga a repousar sob o julgo do nosso próprio juízo e do carrasco que aponta o dedo.
Tu és homicida. Matas a esperança no ventre.
Aborta os sonhos antes que vejam a luz. E nos fazes repousar sobre o incontrolável daquilo que, por orgulho ou ilusão, jurávamos controlar.
Tarde, ou cedo, não anuncias hora, nem dia, nem momento. Apenas mostras: estou aqui.
Embora imprevisível tua chegada, é previsível tua presença. E no silêncio, és a razão. Só as palavras. Sentamos à mesa contigo. É ali que nos serves o jantar amargo. Deglutivo com dor.
Enquanto comemos, trocamos frases caladas.
Silêncios servidos entre goles indigestos. E mastigamos o que não se diz.
Há um coração pulsante no texto.
Kelvi Silva.


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