A DESGRAÇA É UM CÃO FAMINTO.

Dead Productive – Oil Paiting.

A desgraça nos persegue como um cão faminto. E o que nos resta, sendo bons humanos, senão alimentar o animal titelado com nossa atenção?

Atenção à desgraça, soa estranhamente áspero, quase insensato. Pois não há razão, ou melhor, não há lógica alguma em fitar o que nos incomoda, em olhar aquilo que nos amedronta.

Ivan Ilitch seria o personagem ideal para conduzir-nos a esse questionamento, embora ele mesmo o tenha feito e, ao contrário de nós, recebido a resposta.

A dor o visitou.

Na iminência da morte, tomado pela doença, a dor, inopinada, o visitava — acicatava-lhe o corpo e a alma, lembrando-o de que era mortal e de que em breve jazeria.

Rebelando-se contra o destino, buscava em vão esquadrinhar meios de afastá-la. Mas ela o encontrava em meio à rotina e aos afazeres, fitava-o de frente, forçando-o a encarar sua presença inevitável.

Maldita seja esta vida que nos chicoteia como escravos da vicissitude. Inimigos da vida e amantes da morte, eis os estrangeiros deste tempo.

Rebelar-se é o gesto que rompe os grilhões do mau augouro do acaso.

Não se deve aceitar ser apenas um vestígio de carne putrida sob uma lápide suja e imunda; é preciso ir além da lápide ornada, além da lápide vistosa, além da lápide decantada pelos feitos em vida. É preciso legar — legar os bons olhos que hão de pousar sobre tua tumba e dizer:

“Eis alguém — e não um morto.”

Os dias bons servem para se alegrar; já os maus, para refletir.

A desgraça gerou em seu ventre fecundo a infelicidade — e ambas te acompanharão, seguirão seus rastros que deixas neste deserto de pranto, perseguindo-te até matar o cadáver insepulto do teu riso.

É preciso muito mais para dar um jeito.


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