QUANDO CRIANÇA.


Se um dia fui feliz, desconheço.

Ou melhor, conheço: foi quando fui criança.

Lembro-me de um presente que recebi de meus pais. Naquele instante, não contive o sentimento que estourava dentro de mim como fogos de artifício que se desmancham em gotas coloridas e brilhantes. Rodopiei no centro da sala, bracejei, esbravejei, gritei, me descontrolei. 

Os olhos marejavam enquanto eu observava o objeto, não pelo objeto em si, mas pelo gesto: ali estava, silencioso, o amor deles por sua pequena criatura, escondido na carranca de meu pai, mal contido no sorriso que lhe escapava, e escancarado no sorriso leve de minha mãe.

E hoje lembro… porque o que me resta são memórias vivas de uma vida morta.

Morta não por alguém, mas pelo próprio tempo, esse trabalhador implacável que não espera ninguém.

O que me resta agora é isso: desengavetar a felicidade, desengavetar a surpresa.

Talvez como Ivan Ilitch, lembro que meu único dia de felicidade foi quando criança, mas não beiro a morte. Não se sabe o que pode acontecer amanhã. Mas não como ele, deitado naquela cama amarelecida, mal envernizada, com a respiração entrecortada e os olhos perdidos no tempo. Não como ele.

Mas angustiado como ele.

Porque agora entendo: o único dia em que fui verdadeiramente feliz foi quando criança.

Talvez porque, naquele tempo, minha única preocupação fosse decidir com o que brincar no dia seguinte. Que novas invenções eu criaria. Como prolongar a alegria ao lado daqueles que, como eu, só queriam brincar.

E, quando surgia um problema, ele era simples: como lidar com a ferida no corpo depois de cair correndo no esconde-esconde, no pega-pega. Eu podia ser tudo: ladrão, super-herói, qualquer coisa. Havia múltiplas possibilidades.

Hoje, o que me resta é ser apenas um sonho dessas possibilidades.

Fui feliz quando criança.

Talvez essa seja a maior prova da minha alegria: o tempo em que minha única preocupação era jogar.

Talvez, como Ivan Ilitch, fui feliz quando criança.

Mas fui também porque meus pais ainda estavam ali, não que hoje não estejam, mas já não é do mesmo modo.

Então é isso que posso dizer: fui feliz quando criança.

E essa é uma das únicas provas que tenho da minha própria felicidade.

E toda vez que repito isso, fui feliz quando criança, a frase vem acompanhada de uma chuva contida nos olhos. Um peso no peito. Uma tristeza muda que se instala sem pedir licença.

Porque dizer isso é como estar em mais uma madrugada…

assistindo a morte da noite e o nascimento do dia.

Vejo, pelas frestas da janela, a luz grisácea do amanhecer invadindo o quarto, expulsando lentamente as sombras dos móveis que ainda ocupam esse lugar que chamo de meu.

Um lugar que… um dia, foi realmente meu. Quando eu era criança.

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