ONDE CRESCE A IRA.


L. lasarev, Russia - Studies 1960s.

Um dia, a raiva furtou minha paz, e fiquei paralisadamente rendido. Cego, andei errante, sem saber aonde ir, por um caminho pavimentado de rancor. Quando despertei daquela hipnose, já era tarde... eu voltara a odiar. 

Preso, num lugar onde as paredes pareciam aproximar-se a cada suspiro, enquanto o ar infiel aos meus pulmões, pouco a pouco, me abandonava. Foi então que a escrita tornou-se a fresta naquela parede, pequena demais para me deixar sair, mas suficiente para deixar o ar entrar.

Ela não derrubou os muros que me cercavam, só me forneceu a oportunidade de manter-me sobrevivendo. Não me deu sabedoria, deu-me capacidade de suportar certa quantidade de inferno dos dias.

Talvez seja isso que o poeta William Blake queira me dizer ao corrigir-me quanto ao ofício de externar a ira: 

“Eu estava zangado com meu amigo, contei-lhe minha ira, e minha ira terminou. Eu estava zangado com meu inimigo, não lhe contei, e minha ira cresceu.”

Blake transforma a ira não expressa em algo que cresce, é alimentado e, por fim, se torna uma árvore venenosa. A raiva deixa de ser apenas um sentimento e ganha corpo, raiz, crescimento e fruto. Mas, quando a expulso, consigo não me tornar seu prisioneiro; recebo minha soltura. Ainda assim, como quem está amarrado ou inclinado ao mal, retorno àquelas paredes nas quais um dia tanto pedi a Deus que não estivesse.

Veja que curioso. Comecei falando em raiva e terminei falando em ira. Ambas parecem vir do mesmo lugar, esse recanto escuro onde alguma coisa em nós se sente ferida e, antes mesmo de entender a ferida, já começa a arder. Talvez tenham a mesma nascente, mas águas de profundidades distintas. São paridas da mesma mãe, mas tomam rumos diferentes. Já não sei ao certo qual delas sinto. Só sinto.

De novo! De novo! De novo e de novo!

Ingeri o fruto. Desde então, aguardo o cumprir do meu destino.

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