O QUE SOBROU DE MIM...


A morte é o suplício que chicoteia a alma, rasga-nos como papel, torce-nos como toalha até o último estalo dos ossos e faz escorrer todo o sangue, que verte sobre a toalha, dando-lhe um novo tom. Minhas costelas estão expostas; a carne revela a fundura das chagas, ao passo que a própria ferida denuncia a arma forjada pela vida que me cortou.

Uma vez, professei que a desgraça é um cachorro faminto: segue-nos, rosnando aos nossos calcanhares, à procura de qualquer migalha de atenção. E nós, em nossa maldita fragilidade, acabamos por lhe entregar até aquilo que nos resta de afeto. Não há escolha. Sou obrigado a encarar a face nua da dor, um rosto descorado, endurecido pela miséria, que me aparece como uma máscara de carne morta.

Suas mãos são ossudas; a pele, fria; os olhos, sem o menor vestígio das chamas que outrora fizeram da vida alguma coisa além de um castigo. E talvez seja isso o que mais revolta: não é a dor que nos destrói, mas a facilidade com que o mundo se acostuma a vê-la. Há misérias diante das quais os homens passam indiferentes, como se a desgraça alheia fosse apenas mais uma paisagem da rua. A vida, essa velha senhora de mãos sujas, continua a cobrar seu preçoe sempre dos mesmos.

Escrevo com grito mudo em meu coração. grito que estrangula o que antes me pulsava com relativa alegria.  A saudade enlutada é a projeção de uma criatura frankensteiniana. Feita de fragmentos que, antes, pertenciam a experiências diferentes. Tudo costurado de maneira imperfeita, formando algo novo. E, uma vez formada, essa criatura assombra. Caminha pesadamente nos pisos do meu coração, remexe o que estava quieto e, revira a paz que eu julgava ter.

Avisto o monstro nos lugares donde tua presença estava. Nas manhãs sem teu bom-dia, nos risos sem teu som, nas piadas inoportunas e nos gracejos anti-horários. À medida que tomo nota, esse monstro vai se tornando cada vez mais imperioso, sua presença perturba, aperta o peito, entorpece os sentidos, até que sua presença já não permita outra coisa senão o medo.

O que mais me causa languor é saber que a vida passa e que sou obrigado a aceitá-la. Os risos entoados à minha volta me causam ódio, causam-me desgosto. E ainda que me venham com o argumento sofismado, esse estoicismo de ocasião que proclama que a vida é o que é e, por isso, devemos aceitá-la, eu não quero aceitar.

Ou melhor: eu já aceitei!

E o assentimento que dei a essa ideia foi justamente o que fraturou minha alma. Não uma fratura qualquer, dessas que o tempo e o repouso podem recompor, mas uma fratura exposta, aberta ao mundo, por onde escorre tudo aquilo que ainda havia em mim. É por essa abertura que sangro. É por ela que tenho uma hemorragia que não cessa e cuspo, já não palavras doces, mas palavras ensanguentadas, palavras de ódio, de pesar, de revolta.

Nessa horas invoco o lamento de Rodrigo, personagem da obra de Shakespeare, quando diz: "É tolice viver quando a vida é um tormento, dispondo nós da prescrição de morrer, quando a morte é nosso médico."

Porém, a ideia seguinte rebate, como contra-ataque de espada, a que acaba de ser exposta, quando Albert Camus afirma: para viver exige mais coragem do que se matar. Talvez seja isso que me atormente: viver é consentir diariamente com o absurdo de estar vivo. É suportar a miséria, suportar o peso, suportar aquilo que a morte, em sua brutal simplicidade, poderia nos poupar. E eu não compreendo. Não compreendo por quê. Não compreendo como.

Pergunto-me por quê. Pergunto-me como. Pergunto-me até quando. Meu riso foi selado. Cerrado. Como se alguém tivesse colocado sobre minha boca o lacre definitivo do silêncio. Enquanto isso, os pensamentos se aglomeram, avolumam-se, arrebanham-se dentro de mim como ovelhas assustadas, umas sobre as outras, sem pastor, sem caminho. Tornam-se tantos que já não cabem na cabeça e parecem vazar pelos ouvidos.

Eu questiono-me demais. E talvez seja esse o verdadeiro carrasco. A morte é, de fato, um carrasco. Ela me conduz ao cadafalso, ajusta a corda, coloca-a em meu pescoço e me obriga ao salto. Por um instante, tudo termina. O corpo pende, suspenso pela corda, enquanto o mundo continua a girar com a mesma indiferença obscena de sempre.

E então volto. Volto outra vez. E outra. E outra. E outra. Sempre ao mesmo cadafalso. Mas há algo que a morte ainda não conseguiu levar. Minha cabeça sangra. Sangra muito. Mas continua erguida. De novo e de novo e de novo e de novo. Mas minha cabeça sangra, sangra muito, mas continua erguida, droga!

Sinto-me como John Marcher. Quando vê aquele homem diante do túmulo de sua esposa, compreende, naquela imagem, aquilo que lhe havia faltado de maneira insana e absoluta. A cena lhe revela uma ausência que até então não soubera nomear. O sofrimento do outro acende alguma coisa dentro dele; transforma as coisas num rastilho de fogo, faz tudo vibrar numa espécie de agonia, numa palpitação interior que não encontra repouso.

Talvez eu também só compreenda a mim mesmo quando vejo o outro sofrer. Quando observo, nos que me são próximos, aquele sentimento indescritível, intraduzível, mas que, de algum modo, se traduz na proporção da desgraça do outro, no langor do outro, na miserabilidade do outro, alguma coisa em mim finalmente encontra uma língua.

É no outro. É sempre no outro que encontro aquilo que não consigo dizer. Vejo o sofrimento alheio e, nele, reconheço uma parte de mim que jamais soube confessar. É como se a desgraça do outro me emprestasse as palavras que me faltam. Como se a dor, quando vivida por outra pessoa, se tornasse menos abstrata e, justamente por isso, mais compreensível.

E é por isso que escrevo tão mal aquilo que sinto. As palavras saem tortas. Os verbos se confundem. As frases se quebram antes de chegar ao fim. Há alguma coisa que tento dizer e que sempre me escapa, como se a linguagem fosse pequena demais para comportar aquilo que me atravessa. Mas então vejo o outro. Vejo o outro sofrer, definhar, perder, lamentar.

E compreendo!

Não sei explicar o que compreendo. Não sei sequer dar um nome ao que encontro. Apenas sei que, diante da desgraça alheia, alguma coisa dentro de mim se organiza. É no outro que traduzo aquilo que não consigo dizer. É no outro que encontro as palavras que me faltam. É no outro que, finalmente, entendo tudo isso. Tudo isso.

O que você espera mais de mim? Meu coração? Tome aquilo que ocupa espaço e já não pulsa direito. Tome o que sobrou. Tome essa coisa que me aperta por dentro e que eu já não sei se é dor, medo ou simplesmente o cansaço de continuar. Então, droga, o que você quer?! O que você precisa?! 

Mate a baleia!

Mate Moby Dick, aquele grande animal, aquele imenso mamífero branco que emerge do abismo e vem, impassível, ao encontro do barco. Pegue um arpão, erga-o, mire na baleia, lance-o com toda a força, atravesse sua carne, mate-a.

Mas como posso matá-la, se o arpão está atravessado no meu peito? Como posso caçá-la, se sou eu quem sangra? Como posso descrevê-la, se descubro, tarde demais, que fui eu quem a carregou para dentro de mim? Mas eu continuo aqui, segurando o arpão, só que agora compreendo: não sou o homem que caça a baleia. Sou aquilo que ela veio caçar.

E talvez, seja somente depois, quando já estivermos do outro lado, que compreenderemos aquilo que as palavras tentaram nos dizer desde o princípio. José Saramago nos legou a imagem de que é preciso sair da ilha para entender a ilha. Eu, amparando-me em sua genialidade, peço licença apenas para completar: que, por vezes, é preciso estar na ilha para compreender sua dimensão e, somente então, sair da ilha.

As crianças ainda brincam no jardim enquanto o sol se esvai, alheias ao crepúsculo que lentamente engole a tarde.

 

 

 


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