IN MEMORIAN.
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| “No Limiar da Eternidade” (At Eternity’s Gate), de Vincent van Gogh, pintada em 1890. |
Mas não tenho o que entregar de degustável. Meus frutos não florescem vidas. Meus frutos não têm saúde. Meus frutos não têm cor. Meus frutos têm os brotos grudados ao caule, nesses arvoredos grisáceos, sem vivacidade, com sombras que não os protegerão do sol, pois seus raios não aparecem aqui. Está anuviado. As cortinas de ferro acinzentadas fecham o céu, cercam o sol, tornam-no prisioneiro.
Eu tentei asfixiar minha mente, tentei calá-la para não ouvir tua voz. Mas maldita é a fragilidade humana: esqueci-me de que o coração guarda memórias e de que é com ele que faço tinta para escrever a saudade eviterna de ti.
Não queria ouvir teus próximos lamentarem por ti, prantearem tua viagem irretornável. Não quis aceitar que despersonalizassem tua unidade ao chamar-te não pelo nome, mas pelo corpo.
Será possível que, ao cessar o sopro da vida, também cesse o direito de ser chamado pelo próprio nome? Que a morte seja capaz de arrancar do homem até a sua alcunha, como se, ao deixar de respirar, deixasse também de ter sido alguém?
Questiono-me irresoluto.
Por que os bons têm sua existência abreviada com tanta facilidade, ao passo que os maus são fossilizados até a senilidade?
É uma das grandes questões que acampam nos pastos da minha consciência. As ideias, togadas, com seus martelos em mãos, os livros de justiça debaixo dos braços, um olhar penitente, o cenho franzido, verbalizações eloquentes e cuja face sisuda se mostra indigesta diante do fato que reprovam, diante do fato que questionam.
Traduzir o lamento em palavras legíveis exige força que talvez não pertença ao homem. Há uma distância quase intransponível entre aquilo que se sente e aquilo que a linguagem consegue corporificar. É preciso arrancar da dor uma forma, dar-lhe contornos, submetê-la às palavras e, ainda assim, saber que alguma coisa sempre permanecerá indizível. Para fazê-lo, seria necessária uma força hercúlea, talvez inumana. Mas, se assim o for, lamentar-se é humano; escrever é divino.
É difícil conceituar aquilo que se percebe em um velório quando se chega a esses ambientes com algum grau de maturidade, se é que se pode dizer que se tem alguma. A visão já não é a mesma. Há qualquer coisa que se revela por detrás da cerimônia, alguma coisa que se esconde entre as flores, os prantos e os silêncios, algo que não se deixa apreender facilmente.
O velório é uma sinfonia de dor e sofrimento. As vozes se sobrepõem, compondo os arranjos mal construídos da perda. Há o grito mais alto, o choro mais abafado, o gemido mais esgarçante, a respiração interrompida, o silêncio daquele que já não encontra palavra alguma. Cada um sofre em sua própria tonalidade, mas todos parecem submetidos à mesma música, regida pelo maestro da dor.
E então vem o enterro.
Teus amigos te acompanhavam, rodeados daquele fosso. Alguns entoavam cânticos de misericórdia, enquanto o padre decantava suas últimas preces. Os mais próximos de ti, aqueles que te amavam, estavam lá, abraçados, conversando, trocando não apenas seus lamentos, mas também suas memórias, suas evocações sobre aquilo que te fora.
Talvez tenha sido ali que o tempo se tornou mais perceptível. Parecia cronometrado pelo número de vezes em que a pá se chocava contra a pedra, arranhava a areia e, logo depois, lançava sobre o caixão mais uma porção de terra. O som era abafado, seco, quase banal. E justamente por isso era implacável.
A cada golpe da pá, a morte parecia abandonar o abstrato e ganhar contornos, peso, matéria.
Aquilo que antes era um corpo cercado de flores, lágrimas e lembranças começava, pouco a pouco, a desaparecer sob a terra. A matéria, silenciosamente, reclamava para si aquilo que a memória ainda insistia em conservar.
Há algo de desconcertante em ver a vida reduzida ao silêncio, o movimento à imobilidade, a presença à matéria, enquanto a terra, golpe após golpe, começa a reclamar para si aquilo que um dia chamávamos pelo nome. Absurda, talvez. Porque há momentos em que a morte deixa de ser conceito, palavra ou notícia. Ela abandona os livros, os discursos e as abstrações, para tornar-se som, peso, silêncio e terra.
E talvez seja esse o momento em que compreendemos que a morte não chega de uma só vez. Primeiro, leva a respiração. Depois, o movimento. Depois, a voz. E, por fim, começa a cobrir com terra aquilo que ainda chamamos pelo nome. Visitar o jazigo. Aquele jardim de morte fornecia-me o sentimento de angústia.
Sinto por não te ter aqui. Sinto por ti por não estar aqui. Tu partiste, eu permaneci. Tu silenciaste, eu ainda te procuro. Eu te chamo pelo nome, e o silêncio me responde.
Em memória a um irmão.


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