Camus e Absurdo pt. I




Seria uma ótima jogada de marketing trazer uma toada de palavras engajadas, para no fim, revelar a venda dum produto alusivo àquilo que é  preciso para se viver. Entretanto, agir desse modo é ser desleal e, acima de tudo, prestar um desserviço ao que li há uns meses. 

Sua filosofia fixouxe-se em minha mente, de tal modo, que somente expondo toda essa perturbação é que finalmente terei um alívio. Espero não contribuir para seu peso mental. Do contrário, terei que aconselhá-lo a parar por aqui. Ainda quer continuar?  Então tá bom, vamos entender aquilo que não nos contaram sobre a vida.

È difícil conceituá-la, por muito tempo inúmeros pensadores tentaram descrever, e até que alguns conseguiram. Contudo, toda essa explicação não se valeu tanto, pois até hoje, em algum momento, hão de perguntar o que é a vida. 

Seria esse o maior problema filosófico? 

Seria essa a grande questão, que nem mesmo os maiores escritores puderam nos dizer em suas narrações fictícias? Aquilo que nem a própria ciência conseguiu  dizer com tamanha precisão? 

Acredito que o  maior problema filosófico  não seja o explicar da vida, mas sim o suicidio. Afinal, o que leva o homem a julga-se que sua vida não merece ser vivida? O suicida é  aquele que numa bela noite, desentendeu-se com a vida, e que na manhã seguinte, já cansado daquilo, ambos estavam sentados á mesa da audiência de conciliação, mediada pela morte. 

E sem chances de trégua, ele assinou o divórcio. O suicida é aquele que olhou para vida em sua totalidade, e ao compreendê-la, julgou-a dispensável. Quando se mata, leva consigo toda a explicação que filósofos e sábios há tempos buscavam entender. 

Os motivos podem ser dos mais variados, porém, dentre esse cabedal de razões, há um que se destaca. Esse, ou melhor, essa, é a mãe que pari os demais motivos. Deixo claro: não é que eu esteja aludindo a palavra mãe á algo ruim, pelo contrário, apenas abuso  da minha verve como também da capacidade polissêmica que uma palavra é capaz de expressar. 

Continuando, ela é aquilo que o filosofo e escritor romancista: Alberto Camus, nomeava de Absurdo. O absurdo é o sentimento que nasce entre a colisão do homem com o mundo. É com esse incidente que passamos olhar atenciosamente á vida, e de semelhante modo, também passamos a notar defeitos e falhas — e por um ato desprovido de amor, optamos pela separação.

O nascimento desse sentimento vem sem avisar, não há momento, hora ou dia exato, ele simplesmente aparece e muda completamente nosso horizonte de consciência. Estamos em mais um dia normal, trabalhando, fazendo aquilo conforme a rotina, de repente passamos a olhar para o afazer de forma indiferente — por um momento aquilo se tornou sem sentido. 

Amanhã estarei fazendo a mesma coisa, para culminar a mesma coisa. Isso quando algo de diferente acontece e muda por completo os planos, e por um momento o que poderia ter saido de rotina, foi interrompido pela vicissitude. 

— Mas todo esforço valerá de quê? Chegando ao tão almejado objetivo, o que fazer quando finalmente tê-lo?

E ali, nessa conquista, cair-se a ficha de que não era exatamente aquilo. Por fim, percebermos que estamos vivendo numa automação para um desfecho insossos e incerto. O costume nos mata antes de percebermos, e quando menos notamos, nossa carne jaz putrefou.

 Acompanhamos apenas o desligamento do espírito ao corpo. Caímos na rotina, mas não deveríamos, visto que, "nos acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não seja a janela, logo se acostuma a não olhar para fora. E por não olhar para fora, logo se acostuma a não abrir todas as cortinas (...)  Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde em si mesma."¹ 

Por conseguinte, essa praxe ainda é alimentada por significados rasos, tênues e, por vezes ilusórios. Pois bastou conquistarmos tal objetivo, que é constatado o quão fraco e vazio é o sentimento depois de apossado. 

— “Ele parecia ser mais significante antes.” 

Mas isso é resultado duma vida irrefletida, e da confusão se que faz de alcançar a felicidade a todo custo. Nós a fundamos em meios rasteiros, e sem perceber, acabamos sendo induzidos a cogitar desse modo, com isso: "As pessoas se habituam muito depressa. Querem ganhar dinheiro para viver  felizes, e o máximo esforço, o melhor de uma vida se concentram nesse ganho. A felicidade é esquecida, e o meio toma-se como um fim."²

 Nada disso valeu, pois o objetivo foi esquecido na medida em que os meios se tornaram seus motivos de desgaste. O homem morre antes de notar.

Esse novo acervo de questionamento é resultado daquilo que Camus chama de despertar de consciência.  Antes é como se ela estivesse adormecida pelo costume, pelos planos e objetivos, agora tiraram-lhe as escamas dos olhos, e como efeito, viu a realidade nua e crua; Uma vida incolor, sem brilho e pujante. 

É como aquela comida favorita feita nos dias especiais, o que a torna única é o tempero que puseram, sem isso, ela perde toda sua formosura. O absurdo é assim, ele faz você enxergar a vida sem tempero. O despertar traz consigo efeitos cruentos e dolorosos. Não são todos que conseguem lidar com tal peso. E é por isso que, tristemente, o suicídio torna-se facultativo.

¹ A crônica: Eu sei, mas não devia, publicada pela autora Marina Colasanti.

² Albert Camus em sua Obra o Mito de Sísifo.

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