Um dia como outro.

       
Aldo Balding, 1960 - Figurative painter
                 

Meu irmão morreu. E eu não sei se foi ontem, ou há dois dias. Só sei que estou nos preparativos para ir ao seu velório. Momentos assim são enfadonhos, pois o desfecho é sempre o mesmo. Choram-se cá, lamentam-se ali, elogiam aqui, e ouve-se gemidos dos mais variados: altos, baixos, entrecortados, silenciosos e alarmosos. Sem dúvidas, o velório é um conserto cuja sinfonia de sons arranhados, expressam as variações do sofrer. 

Concluo esse raciocínio enquanto dou minhas últimas mastigadas no pão velho intercalando com o último gole de café restado mais cedo. São duas da tarde, a cerimonia começou há um tempo, e nesse lapso, penso se tenho ou não tenho que ir. 

É… tenho, afinal, é meu irmão, e devo-lho isso. Sem demora, apresso-me para ir vê-lo pela última vez.

Durante a ida até a parada do ônibus, rememoro os bons momentos que tivera com ele, sua presença me alegrava, apesar de seu humor forçado e sem sentido algum. Lembro-me das vezes em que aparecia em casa. Batia à porta, na primeira vez forte, na segunda fraco, e indo olhar pelo óculo, via-se um homem franzino, careca sob um tom pardo, com um nariz concavo e com uma expressão risonha. Era tão sorridente que havia marcas acentuadas nos cantos do lábios. 

A chegada do ônibus suspende a boa lembrança, então subo-no e sento no segundo banco à esquerda. Num gesto rápido, descanso minha cabeça sob minha mão direita apoiada no braço do banco, e me esforço para retornar à memória cortada. Não consigo, visto que o falatório do lugar estava alto demais, e isso atrapalhava minha concentração. Lembrar é reviver, portanto, é preciso foco para mergulhar e degustar bem do restinho de vida que agora se hospeda dentro de nós.

80km até à cidade do meu falecido irmão. Passou-se rápido, e ao descer do ônibus pedi a um táxi próximo para levar-me à tal estância lutuosa. Indo. Noto que estou próximo por ver uma nuvem negra de pessoas saindo e entrando numa casa. É interessante como a combinação do preto evidência a morte. A ausência de coloração, o vazio, o silêncio, o jazir de uma correria. O escuro chegou e abortou tudo aquilo brilhava.

Entrando com dificuldade, por causa do aglomerado, percebo o quão amado meu irmão era, do contrário, penso que ali há mais curiosos do que realmente interessados em sua pessoa. É estranho saber que este dia servirá de inspiração para criações de histórias que serão ditas, de modo qualquer, em rodas de amigos. É só mais um dia inspirador para os curiosos. 

Ao me aproximar do caixão repousado no centro da sala, penso se deveria ter ido falar com mamãe, sua esposa Alice, e seus filhos, afinal de contas, os vivos são os que mais carecem de atenção. – Mas por que me preocupar com isso? interrogo-me. Eu nem  sequer falava com eles mesmo, e se lembro bem, disse que viria ver meu irmão; posso cumprimetá-los depois. É… Farei isso.

Retomando ao caixão marrom escuro, com seu brilho suave, detalhado dum dourado discreto, como se fosse um tributo modesto à vida que ali descansava. Fito seu rosto, e reparo que o pardacento de sua pele tornou-se pálido, que seus olhos estão delineados por círculos escuros, dando a impressão de que um abismo tomou seu rosto. E que sua carcaça que já era magra, agora apercebe-se que a carne está tão chupada, que acentuou os ossos do seu corpo. E que seu sorriso solto está preso por uma sisudez. Resta, no entanto, as marcas que evidenciam o quanto era sorridente. 

Está bem vestido, em seu smoking adorna-se na lapela direita um broche áureo contrastado ao prata, e logo acima há o brasão, denunciando, assim, que era um homem sério e de grande importância para a sociedade. Ao reparar nisso, tomo para mim que a busca por toda essa glória não faz sentido.  

O fim daquele lamentoso evento se aproximava, era a hora de enterrá-lo, recusei ir ao sepultamento, não gosto dessa segunda etapa, e com isso me despedir dele pela última vez. Até outra vida, se é que exista, e pus-me de volta para casa. No íneterim da viagem, acabei adormecendo devido ao enfado, quando menos notei, estava na parada de minha cidade. Já era noite. As ruas estavam acessas e movimentadas por casais, jovens, crianças e homens vindo de seus custosos trabalhos.

Como era uma sexta-feira, as ruas estavam mais movimentadas do que o comum. Entrando em casa, troco de traje, e ponho as retiradas para lavar. Mamãe dizia que ao vir de lugares assim, as roupas precisavam de lavagem o quanto antes, pois trazem agouro. Não compactou com essa ideia, só faço isso por questão de higiene, até porque acredito que bactérias matam mais que superstições. 

Sentado à mesa, prestes a pensar no que fazer para jantar, penso na vida e em tudo que ela pode significar, olho para o relógio na parede, – são oito e quinze. Olho pela janela, e vejo a rua luzida pelos portes de ferros, com suas colorações amarelecidas. Retomo o olhar para dentro da minha casa, revejo mais uma vez o relógio, e atesto que hoje foi só mais um outro dia. 

– Preciso comer, estou ficando com fome.

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