EM TERRA DE CEGO, QUEM TEM OLHO É REI.


 O indivíduo bajula-se por ter lido seus mil e quinhentos livros em um ano, gosta de passar na cara e faz questão que todos saibam de suas envergaduras. Posta para todos e faz resumos inculcados de "críticas". 

Pergunte-o quantos livros lera, ele te responderá com ares de arrogância, estufar-se-á os peitos com pompas, e dará três voltas ao mundo para explicar o simples. Nelson Rodrigues foi surpreendido, certa vez, por essas espécimes, mas o escritor, solerte que era, conseguiu sair da arapuca dialética, e ainda fez troça do bonachão.

Esse fetiche de ler livros demais nos revela a decadência da educação. Priorizam mais a quantidade do que a qualidade, se importam mais em ler do que entender — o importante é parecer ser, e não ser. Nisto, abre-se uma fenda para a burrice dar sua face.

Mas o motivo de quase endeusarmos esses eruditos, é por causa da deficiência lógica do brasileiro de pensar. Vivemos num país onde a leitura é quase escassa, então, quando notamos alguém lendo, o vemos como numa claraboia; aquela famosa luz estreita angelical que surge do céu destacando o indivíduo da penumbra. E advirto, ele se torna mais deus ainda, quando tem uma biblioteca. 

"Em terra de cego, quem tem olho é rei."

O pseudo-intelectual é mais comum do que se pode imaginar. Ele atavia-se com a falsa autoridade que esconde seu corpo nu de miséria. Com isso passa a ganhar prémios, diplomações e confrarias. Essa apetência pela a imagem é explicável — poder.

Portanto, permita-se ouvi-lo, atente-se nos seus discursos. Notará que toda a sua fala é recheada duma belezura de palavras, uma sucessão mais linda do que a outra, porém, a lógica e a coerência passam longes — o sofisma é gritante, é típico daqueles pasteis de feira, sua forma é convidativa, mas seu recheio é somente uma delgada fatia de queijo e presunto.

É sobre tudo soberbo, ou seja, não admitirá facilmente os erros, tampouco dirá que não sabe. Sócrates passou por isso, inimigo dos sofistas? Talvez, contudo, conseguia encontrar a verdade duma simples forma, perguntando. Nesse momento reconhecia que o que estava sendo dito era só palavras vazias, pensamentos confusos, e expressões espalhafatosas. 

Entretanto, o silogismo brasileiro é assim: Eu não leio, você não lê, logo, aquele que lê, este sim é o mais aplicado aqui. Não preciso ser um lógico pra dizer que não faz sentido, né? Pois bem, mande essa lógica para os cafundós, e abra os olhos.


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