Morri antes de morrer.


Estou deitado com fortes dores, meu corpo está padecendo, já não tenho mais forças como antes, e meu aspecto denuncia que o fim está próximo. Na cama onde me encontro — a posição estranha foi a única maneira de amenizar a dor. Uma respiração errada e ela volta, por isso mantenho-me focado e supersticioso, preciso ficar assim.

E nesta posição estranha, mas confortável, que acabo tendo a concentração roubada pelos novos e duros questionamentos. Por que estou passando por isso? Por que Deus está fazendo isso? Eu era feliz! Estava tão bem até domingo passado. Por quê?

— Por que!? O que você quer? Diz a voz indistintamente familiar. Assustado com isso, mas sem tempo para dar completa vasão ao medo, respondi-lhe impulsivamente: — Eu quero ser feliz novamente, quer... E você foi feliz? Interrompe a voz com um tom exigente e compassado. 

É nessa pergunta que começo a observar minha vida, olha-a por todos os cantos, e como alguém que observa os lados duma casa, avisto certos quartos vazios há serem pintados e mobiliados. Focado e atento, percebo que não vivi. Tudo que fiz foi sem sentido, não dei sentido, só segui.

O desespero me abraça fortemente, a dor aperta-me o peito, a confusão torna-se um vozear de uma multidão; o ar começa a escassear; a razão adormeceu; gelo-me. Um grito emudecido com continuadas lágrimas surgem. Começo, então, a chorar como uma criança que acabou de perder seu brinquedo favorito — porque sabemos que não o teremos de volta.

O desespero faz-me sair da posição confortável, mas essa dor se torna fraca comparada com a nova de não ter vivido. Apesar dos ganhos e da boa situação, não fui feliz, a única vez que fui foi quando criança. Por quê? E o único momento em que falei o nome de Deus foi agora, por quê? 

Há muito tempo morri, há muito tempo não sentia a vida, estava adormecido com os olhos vedados e letárgico neste caixão convencional. Por está muito tempo com a morte, supreendi-me quando finalmente vi a vida, aquela bela centelha que agora diminui mais e mais! Está escuro, ouço o farfalhar, e os gemidos abafados distantes, o cheiro da terra umedecida e as preces somadas ao canto fúnebre, sinalizam a concretização da vida. 

 E agora aqui, sentado ante a cama velha com sua madeira ruça e descascada, com seus lençóis amarelecidos, amontoados sob velhos travesseiros de pluma, em que jazia um corpo, doí-me saber que morri antes de morrer.


Comentários

  1. Um sentimento, uma dor, uma angústia que se agrava cada vez mais em um aterrorizante silêncio.
    Sentimentos vão e volta trazendo consigo a boa alegria, mas permanecendo a cruel tristeza, é nessa que ser-lhe-á um sobrevivente da chamada "vida"

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